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Uma ilha não, metade de uma ilha

01/12/2008
por Jaime Pereira Reis
 

Timor Leste. No senso comum um país distante e exótico, que fica do outro lado do mundo. Até mesmo em círculos mais intelectualizados a falta de conhecimento sobre o Timor Leste é proporcional à distância física que separam o Brasil do pequeno país do sudeste asiático. Comigo não era diferente.
 
Em junho de 2007, me inscrevi em um processo seletivo promovido pelo MEC/CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) cujo objetivo era selecionar professores para trabalhar no Timor Leste. O projeto, com duração de um ano, fazia parte de um conjunto de ações, de cooperação internacional, do governo brasileiro. O edital deixava claro o objetivo do programa: promover a formação, em Língua Portuguesa, de professores em exercício nas escolas primárias daquele país.
 
Interessante observar que a formação em língua portuguesa, citada pelo edital, não restringia a seleção a professores de língua portuguesa. Foram selecionados professores das áreas de matemática, física, história, geografia e química, entre três ou quatro professores de cada área de conhecimento.
 
Após 22 anos como professor de matemática, entre o ensino fundamental, médio e superior, percebi que era hora de fazer algo diferente. Qual professor não sonha em fazer algo diferente do que tem feito ano após ano no exercício do magistério? Qual profissional da educação, na correria da atividade docente, entre uma aula e outra, entre um turno e outro de trabalho, entre um ônibus e outro, nunca pensou em abandonar tudo e partir para terras distantes, conhecer pessoas, comidas e culturas diferentes? Essa era minha oportunidade para conhecer um pouco mais do mundo.
 
O primeiro sentimento foi realmente de aventura, pois eu estava indo para um país sobre o qual o brasileiro médio, inclusive eu, possuía pouquíssima informação. Mas não podia deixar que esse deslumbramento pelo novo interferisse no trabalho de forma negativa. Eu estava indo como único representante do meu Estado, Espírito Santo, com a responsabilidade de ajudar na difusão da língua portuguesa e contribuir no aprimoramento dos conceitos e conhecimentos da matemática para os professores daquele pequeno país. Desde o momento em que recebi a notícia de que havia sido selecionado para participar do programa, tentei equilibrar os sentimentos do privilégio do contato com aquela outra parte do mundo com o compromisso de uma prática não colonizadora ou de mensageiro do conhecimento.
 
Entre o resultado do processo seletivo, que constou de entrevista e análise de currículo, e o embarque foram 15 dias. Até hoje não sei se a correria das duas semanas antes do embarque serviram para neutralizar ou para agravar a ansiedade do embarque.
 
“Uma ilha não, metade de uma ilha”. Esta foi é a resposta mais comum que dou quando alguém me procura para conversar sobre o Timor Leste. Acho que esta frase diz muito da história de sofrimento e de conquistas daquele povo. Em uma divagação poética, imagino que muito do sofrimento passado por aquele povo, nos últimos anos, teria sido menor se eles não tivessem que dividir, com a Indonésia, o espaço da ilha que ocupam.
 
É impossível entender quais os motivos que levaram o governo brasileiro a assumir essa cooperação internacional com o governo timorense e o que um grupo de professores brasileiros foi fazer lá durante um ano, sem compreender alguns fatores históricos daquele povo e sua relação com a língua portuguesa.
 
O país, situado no sudeste da Ásia, ocupa 14.609 km². Para efeito de comparação, o Espírito Santo possui 46.077 km². Sua relação com a língua portuguesa se iniciou em 1512 através dos navegadores portugueses de então. A abundância do sândalo na ilha e mais tarde o cultivo do café, motivou o contato e a manutenção do comércio entre os nativos locais e os portugueses. É natural, portanto, que o habitante da ilha, na época, aprendesse o português. Em algum momento da história os portugueses, em acordo com os holandeses, que ocuparam a outra parte da mesma ilha, decidiram os limites dos domínios de cada um, estabelecendo assim a origem do Timor português.
 
Logo que lá cheguei percebi rapidamente que deveria tomar certo cuidado na convivência e conversa diária com o povo timorense com relação à diferença de visão história que o brasileiro e o nativo da ilha possuem com relação a Portugal. Eles consideram que Portugal sempre foi parceiro e nunca explorador. O discurso de colonizador e explorador das riquezas e recursos das colônias pelos portugueses, tão comum ao meio acadêmico brasileiro, não se aplica ao sentimento timorense. Isso apesar de durante minha estada de um ano na ilha, eu ter visto no máximo uns três ou quatro pés de sândalo.
 
Durante a Segunda Guerra Mundial foi a vez do Japão, com sua política expansionista, ocupar a ilha. Conversando com os mais idosos, o relato de violência durante a ocupação japonesa é comum.
 
Passado o período de ocupação japonesa, Portugal retomou a posse da parte da ilha restabelecendo o uso da língua portuguesa. O restante da ilha, juntamente com outras milhares de pequenas e grandes ilhas próximas, formou a República da Indonésia.
 
Em 1975, quando passava por problemas políticos internos, Portugal resolveu “dar a independência”, expressão utilizada pelo próprio povo timorense, ao Timor Leste. Esse período de independência não durou mais que uma semana. Assim que Portugal se retirou, a Indonésia já constituída como país independente da Holanda ocupou a outra parte da ilha.
 
As diferenças culturais entre o Timor Leste e a Indonésia são muitas. Duas diferenças marcantes são com relação à religião e a língua: o Timor é 90% cristão e a Indonésia 90% muçulmana e em nenhuma parte da Indonésia se fala o português, ao contrário do Timor.
 
O período de ocupação Indonésia foi um dos mais violentos que se tem notícia durante o final do século passado. Falar o português era certeza de morte. A execução poderia ser na rua, na escola, na igreja ou no hospital. De preferência na frente de muitas pessoas e em locais públicos para que servisse de exemplo aos outros. O recado era claro: vocês agora são indonésios e não formarão um país independente.
 
O timorense que resistiu fugiu para as montanhas, morou em cavernas ou cabanas, bebia água da chuva e comia o que a floresta podia dar. É importante lembrar que a floresta timorense não é tão diversificada quanto a floresta tropical brasileira. A chuva é muito concentrada no período de novembro a março enquanto nos outros meses os córregos e riachos secam e praticamente inexiste chuva. Escondidos nas montanhas, o timorense se via privado até mesmo da rica variedade de peixes e mariscos do paradisíaco mar do Timor.
 
Convivendo com a desnutrição, enfrentando as armas do exército indonésio e montando grupos de guerrilhas e resistência, o timorense lutou como pôde, durante 25 anos, sonhando com o dia em que pudesse retornar a sua casa e viver em um país livre e democrático. O melhor da conversa com um timorense é quando ele começa a contar sobre as vitórias que o povo, mesmo desarmado e dispondo de armadilhas na mata, conseguia derrotar de alguma maneira o poderoso exército indonésio. A empolgação logo toma conta de todos e a conversa se anima, com os mais idosos destacando esse ou aquele momento das batalhas da resistência.
 
No ano 2000, após muitas mortes e perseguições, a população conseguiu realizar um referendo apoiado pela ONU. A vitória do sim pela independência foi esmagadora. A Indonésia não acreditava na vitória do sim e a ONU não acreditava em uma reação indonésia caso o povo escolhesse pela independência. Os dois estavam enganados.
 
O povo havia descido das montanhas para votar: pessoas idosas, jovens, mulheres grávidas e a guerrilha desarmada. Era hora de juntar a maior quantidade possível de votos para que se conseguisse a vitória. O sim pela independência venceu o referendo. A reação da Indonésia, agora não mais representada pelo exército, mas pelas milícias armadas por ele, foi imediata. A destruição do país foi total. Quando a ONU percebeu que deveria agir já era tarde. A quantidade de histórias de pais, filhos, vizinhos e avós mortos naquele ano é incalculável. Ouve-se falar em 500 mil pessoas mortas durante os 25 anos de ocupação. O número exato, nunca saberemos.
 
Com a ajuda da ONU e de soldados do exército de vários países, como o Brasil, Austrália, Nova Zelândia, o país conseguiu realizar eleições parlamentares e eleger o primeiro presidente. Em 2002, a tão cara independência, conseguida a custa de muita morte e sofrimento, chegou ao povo timorense.
 
Como forma de se diferenciar de seu opressor e se afirmar como nação com características próprias, a assembléia nacional constituinte decidiu por adotar o português e o tétum como línguas oficiais timorenses. O tétum é um dos mais de trinta dialetos falados na ilha. Segundo eles, o mais conhecido pela população.
 
Passados oito anos, o timorense começa a sorrir. Um sorriso carregado de perseguição, de tristes histórias e lembranças ruins. Tome cuidado ao utilizar a palavra ruim no Timor Leste, pois ela tem conotação sexual no tétum.
 
Por estar na constituição como língua oficial, o português precisa ser aprendido pelas novas gerações. As mesmas que foram proibidas de utilizá-lo durante a ocupação indonésia. Foi isso que levou nosso grupo de professores brasileiros ao Timor.
 
Ensinar matemática, em português, para um grupo de pessoas que não falam minha língua materna foi o desafio de minha vida profissional. No caso da matemática, acredito que a dificuldade tenha sido menor que para os colegas de outras disciplinas em função da simbologia universal de que ela se utiliza.
 
Mesmo assim, não foi tarefa fácil. Minhas turmas eram formadas por professores do ensino primário e secundário (equivalente ao fundamental e médio). Muitos vieram direto das guerrilhas nas montanhas para as salas de aula. Era preciso proporcionar uma formação oficial aos professores.
 
Penso que um fato, que relatarei a seguir, retrata bem a grande dificuldade que é o trabalho do professor no Timor Leste.
 
A cada ano, o uso e ensino do português avança um ano nas escolas timorenses. Neste ano, 2008, ele chegou à oitava série do ensino primário. Assim, um aluno da sétima séria já domina, de forma razoável, algo da língua portuguesa. Porém os professores que trabalharão com eles são formados, na universidade, utilizando ainda livros editados em língua indonésia, por professores formados durante o período de ocupação indonésia.
 
O fato relevante é que o aluno do curso de formação de professores, da universidade, e que hoje está na faixa de 20-30 anos, não possui pleno domínio da língua indonésia, uma vez que ele nasceu e se criou nas montanhas durante a resistência.
 
A língua da resistência era o português, já que isso dificultava as ações do inimigo. Assim, o aluno do sétimo ano terá aulas em português, utilizando livros didáticos doados por Portugal ou elaborado por missões brasileiras em educação, por professores que não dominam o português, e que, por sua vez, foram formados na universidade utilizando material didático editado em língua indonésia.
 
A fascinação do povo timorense para com o povo brasileiro ultrapassa nosso grau de compreensão. Não temos a menor noção do grau de identificação cultural que aquele povo distante imagina ter com o Brasil e com o povo brasileiro. Tudo que lembra o Brasil é motivo de orgulho entre eles. O melhor presente que se possa dar a um jovem timorense é um boné ou uma camiseta com a nossa bandeira. A qualquer festa por mais simples ou sofisticada, dentro dos padrões timorenses, que se vá é possível ouvir Roberto Carlos ou Amado Batista.
 
Em qualquer conversa sobre o Brasil, é incrível o espanto deles quando se conta como é o rio Amazonas, nossas grandes cidades, nossas hidrelétricas e as mulheres brasileiras.
 
Lembro-me que, em determinado dia, tiver que descobrir na Internet uma foto de um tatu, devido a tanta curiosidade e perguntas sobre o animal que foram aparecendo durante uma de minhas aulas.
 

Quanto a isso, eu tenho um raciocínio antropológico, que necessitaria de maior aprofundamento científico.

Imagino que tamanha fascinação com o Brasil e com o brasileiro está intimamente ligada à negação da Indonésia, como opressora durante tantos anos. Para o timorense, pensar que do outro lado do mundo existe um país enorme, muito rico, com grandes rios e florestas, que possui uma cor de pele parecida com a deles, com população equiparada à da Indonésia e que fala português como eles gostariam de falar e que, principalmente, é majoritariamente cristão como eles. Serve como um recado à Indonésia que poderia ser: “somos mais brasileiros do que indonésios”.
 
Terminado o período de um ano no Timor Leste, nosso grupo conseguiu concluir a formação de 120 professores de matemática e entregamos duas sebentas (livros didáticos) do oitavo e do nono ano do ensino primário. Muito pouco diante da esperança que aquele povo deposita no Brasil e no povo brasileiro para superar as dificuldades de país mais novo da Ásia.
 
Jaime Pereira Reis
Professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis de Cachoeiro de Itapemirim e do Instituto de Ensino Superior do Espírito Santo
 

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